O "Macho do Século XXI" explicado pela filosofia
 
17Sep

O "Macho do Século XXI" explicado pela filosofia

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Claudio Herique

 

Recentemente, fui convidado para fazer uma palestra juntamente com o Professor Clóvis de Barros Filho, do qual sou grande admirador. A combinação das nossas apresentações não poderia ter um resultado mais interessante, por dois motivos. O primeiro foi a oportunidade de aprender demais com o professor da USP na palestra “A vida que vale a pena ser vivida”, onde ele explica o conceito de felicidade na visão de alguns pensadores. Mas o mais legal foi ver que a experiência feliz que conto no livro “Macho do Século XXI” pode ser perfeitamente explicada sob a óptica da filosofia.
 
 
 
 
O primeiro dos filósofos citados pelo Prof. Clóvis é o grego Aristóteles, que dizia que para ter uma vida bem sucedida, uma pessoa precisa buscar a excelência dos seus talentos, utilizar da melhor maneira possível suas habilidades. Imagine alguém que tenha facilidade para explicar as coisas, mas nenhum talento para desenhar. Esse indivíduo certamente não será feliz como arquiteto, entretanto será muito bem sucedido como professor.
 
Além disso, em 350 a.C havia a certeza que o universo era finito e ordenado, cada coisa tinha sua função e cumpria seu papel. Aristóteles, portanto, diria que se a natureza te deu talentos, espera-se que você desempenhe atividades relacionadas a eles. E quando você descobre qual é a sua praia, o papel destinado a você no universo, aquilo que te dá prazer, a vida passa a ter graça, e você é feliz.
 
Utilizando essa definição e pensando na mudança radical de executivo para dono de casa, é verdade que a natureza não me deu o dom de executar com perfeição os afazeres domésticos – embora eu tente fazer o meu melhor. Mas acredito que ela me deu o dom de ser um bom pai. Certamente, uso a plenitude das minhas habilidades quando cuido dela, quando estou ao seu lado. Cumprindo esse meu papel na natureza, sou muito realizado. E como recentemente pude adicionar ao meu cotidiano outras atividades que me dão prazer, como escrever e compartilhar minha história nas palestras, sou ainda mais feliz.
 
Pois é, Aristóteles, tenho que concordar com você...
 
O segundo pensador ilustre citado pelo Prof. Clóvis foi Jesus Cristo. Numa definição oposta à de Aristóteles, Jesus dizia que a felicidade não dependia da realização individual, mas da capacidade de amar ao próximo e fazer a diferença para as pessoas que estão à sua volta. Para Jesus, aqueles que se preocupavam mais com si mesmos, com seus próprios ganhos, com seu sucesso, não entenderam o sentido da vida.
 
Se pensarmos nos sacrifícios que fazemos todos os dias para agradar as pessoas que estão à nossa volta, o quanto trabalhamos para garantir o sustento e uma vida melhor aos nossos familiares, nas noites em que passamos em claro com um filho ou um parente que padece de alguma doença, essa definição de felicidade faz todo sentido. A vida das pessoas que amamos é o que dá sentido à nossa própria vida.
 
Quando mudei para Cingapura e deixei para trás tudo o que eu tinha construído até ali, os meus parentes, os meus amigos, eu não pensei em mais nada que não fosse o sucesso da carreira da minha esposa e o bem-estar da minha. Foi isso o que definiu minhas ações e as orientam até hoje. Algo de que nunca irei me arrepender.
 
Jesus Cristo também explica o “Macho do Século XXI”... 
 
Na sua palestra, o Professor Clóvis caminha no tempo e chega em meados do ano de 1600. O homem descobre, embora com muito menos detalhes do que conhecemos hoje, que o universo é infinito e caótico. Como a Terra é um minúsculo ponto na imensidão, o homem como indivíduo não passa de uma centelha de energia finita. Surge então o filósofo Espinoza. Para ele, uma vez que tudo no universo é energia, a melhor vida é aquela com o máximo de energia possível – que ele chama de “potência de agir”. O filósofo cria o conceito de alegria, que é o ganho dessa potência de agir, a energia para viver.
 
A felicidade, então, não seria fazer tudo com o máximo de energia possível – até porque não são todas as coisas da nossa vida que nos alegram – mas identificar os nossos fatores de motivação e vivê-los com o máximo de energia possível. É isso que eu faço hoje, todos os dias.
 
Quando eu tomei consciência de que não poderia voltar a ter um emprego formal por um bom tempo, deixei a tristeza de lado e decidi que seria o melhor dono de casa do mundo e zelaria pela minha filha Luiza como ninguém. Resolvi colocar o máximo de energia nesse objetivo. Também comecei a valorizar as pequenas conquistas do dia a dia. Para um cara que não sabia fritar um ovo, aprender a cozinhar um pouquinho já é uma vitória. Hoje, por exemplo, poucas coisas me dão mais alegria do que ver a Luiza terminar uma refeição e dizer que sou o melhor cozinheiro do mundo (embora eu saiba que estou infinitamente longe disso).
 
Parece que Espinoza também diz muito nesse meu caso...
 
Mas de todos os conceitos que ouvi naquele dia, o que mais gostei foi da definição de felicidade dada pelo próprio Professor Clóvis. “Todo mundo pode ser feliz: sua vida será melhor se você utilizar bem seus talentos naturais, se você tiver as pessoas que você ama felizes ao seu lado, se você tiver alegria”, disse ele. “Você pode ter instantes de felicidade vivendo em qualquer cidade, em qualquer emprego, em qualquer situação. Todos eles têm uma coisa em comum: quando um instante de vida é feliz você gostaria que ele durasse um pouco mais, torce para que ele não acabe, procura repetir outras vezes. Quando a vida é feliz, você não quer que a ela acabe”, completou o professor.  
 
Uma das coisas que me fazem sentir mais feliz é quando estou segurando na mão da minha filha; nos momentos em que recebo um beijo ou um sorriso dela. Ao refletir sobre essa definição de felicidade, chego à conclusão que minha vida vale muito a pena ser vivida, pois na maioria das vezes eu posso repetir esses momentos sempre que eu quero.
 
Professor Clóvis, você também tem razão! Obrigado pela lição de filosofia e por ter reforçado, ainda mais, minha convicção de que tomei uma decisão correta, desafiando todas as chances de que poderia dar errado.    


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