Lego, um milagre que teve a “mãozinha” das meninas
 
13Feb

Lego, um milagre que teve a “mãozinha” das meninas

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Claudio Herique

 

Se você tem filhos, netos, sobrinhos, certamente já conhece a Lego e seus brinquedos (e seus desenhos animados, filmes, vídeo games, parques temáticos – parece uma praga, está em todo lugar). A chance é grande que você já seja um consumidor fiel ou até mesmo volte a ser criança ao criar várias formas diferentes com os bloquinhos de plástico da empresa dinamarquesa. Mas talvez você não saiba que até bem pouco tempo atrás, essa empresa com faturamento anual de US$ 1,4 bilhão de dólares já esteve à beira da falência, perdendo cerca de US$ 1 milhão por dia.
 
A história da recuperação financeira da Lego é fantástica. A empresa se reinventou desde 2004, quando registrou o maior prejuízo da sua história. Promoveu uma mudança total em todos os processos operacionais, fabricação, distribuição, vendas e marketing. Livrou-se das linhas de produto que davam prejuízo e passou a ouvir seus clientes, em especial, as crianças. O resultado dessa inovação e constante renovação, é um crescimento anual de dois dígitos nos últimos sete anos e lucro de 24% sobre um  faturamento de quase US$ 1,4 bilhão, equivalente ao do Facebook. Para atender a alta demanda, a empresa produz 105 mil peças por minuto.
 
 
Mas além dessa recuperação milagrosa, que já se tornou um caso de estudo em administração, uma das coisas que mais me chamou a atenção é que a empresa contou com a ajuda das meninas nessa recuperação. A história é muito interessante.
 
A Lego mantinha por muito tempo uma linha de brinquedos voltados para meninas, que nunca decolou. Ao contrário dos produtos voltados para os meninos, que vinham com uma infinidade de bloquinhos para estimular a imaginação, o Lego para meninas já vinha com a maioria das peças praticamente montadas, não havia quase nenhuma interatividade. Por mais que os executivos da Lego investissem no licenciamento de personagens ou desenvolvimento de temas interessantes “para meninas”, seus produtos continuavam encalhados nas prateleiras. 
 
Incorformados com as vendas baixas de seus produtos e já em pleno processo de reinvenção, os executivos da Lego decidiram finalmente ouvir seus clientes. Ou melhor, suas clientes mirins. Para surpresa deles, as meninas entrevistadas achavam os brinquedos muito chatos. Elas preferiam brincar com os outros produtos da marca, que vinham com muito mais peças para montar. Afinal, elas também gostavam de construir tudo o que lhes viesse à cabeça, criar formas maravilhosas e diferentes, e não apenas brincar com castelos e casinhas pré-montadas, que não tinham a menor imaginação.
 
O resultado dessa descoberta foi o lançamento do “Lego Friends”, que levou quatro anos de desenvolvimento. Desde dezembro de 2011, a cor rosa tornou-se o novo preto dentro da Lego. E não é pra menos. Apenas no primeiro ano de lançamento, a nova linha de produtos ficou entre as quatro mais vendidas dentre as mais de 30 comercializadas pela empresa.
 
 
 
A Lego recebeu algumas críticas pelo fato de todos os personagens da linha Friends serem meninas e alguns temas seriam retrógrados e até mesmo sexistas. Acho um exagero. A empresa rebateu dizendo que essa foi apenas a linguagem utilizada para que a marca pudesse se comunicar de maneira adequada com as meninas e seu desenvolvimento foi totalmente baseado nas pesquisas realizadas com esse público. Além disso, as peças são totalmente intercambiáveis com os demais produtos da marca e portanto, não existe qualquer restrição na sua utilização. Críticas à parte, o fato é que a estratégia funcionou e a marca Friends triplicou o número de garotas que passaram a fazer parte do universo Lego.
 
Nossas crianças recebem os mesmos estímulos, independente de gênero. Esse exemplo da Lego é uma prova de que as novas gerações, mesmo que intuitivamente, nos ensinam todos os dias que não existem mais brinquedos ou tarefas de meninos e de meninas. E que um mundo com oportunidades iguais não fica apenas melhor, mas também mais divertido.


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