A foto que ficou faltando no livro
 
17Dec

A foto que ficou faltando no livro

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Claudio Herique

 

Quando estava finalizando a edição do livro, selecionei uma série de fotos do meu arquivo pessoal e confesso que senti falta apenas de uma imagem, que infelizmente não existia. Eu queria ter incluído no livro uma foto do Jason, o funcionário da locadora de automóveis que vivia me perguntando quando iria voltar a trabalhar, o que me incomodava demais, tanto que acabei mudando de locadora e o trajeto das minhas caminhadas matinais só para não ter que encontrar com ele. O Jason não conseguia entender como um homem não trabalhava para cuidar apenas da filha e da casa. Acho que não entende até hoje. Mas vamos em frente... 

 

No final de novembro, voltei com a família para férias em Cingapura por duas semanas. Quando morei na ilha asiática, sequer imaginava que escreveria um livro sobre a minha história. Portanto, não faria o menor sentido ter feito uma foto do Jason. Mas agora fazia. Ainda no avião que nos levava de Nova Yorque para Cingapura, eu e Dani fazíamos planos da viagem e logo pensei: tenho que visitar o Jason e mostrar o livro para ele.

 

A viagem foi ótima, aproveitamos demais. Revimos todos os lugares que queríamos. A Luiza refez todos os passeios legais dos quais ela tinha apenas uma vaga lembrança. Matamos a saudade do lugar que havíamos deixado há apenas 16 meses, com tantas lembranças boas. Mas faltava encontrar o Jason.

 

Assim, dois dias antes do final da viagem, peguei a Luiza e um exemplar do livro e, de mãos dadas, caminhamos pelo Rio Cingapura. Chegando ao escritório da Avis pergunto pelo Jason e, antes mesmo da recpecionista nos anunciar, ele aparece com um largo sorriso no rosto -- não sei se estava feliz por me ver ou se era a expectativa de que eu voltasse a ser seu cliente.

 

Eu esperava ser recebido com um "how are you?". Mas, para minha surpresa, suas primeiras palavras, quase dois anos depois de me ver pela última vez, foram as singelas "are you in business?", que numa tradução livre significa "você já está trabalhando?" Inacreditável!  A pergunta ainda era a mesma. A única diferença é que agora não me incomodava mais. 

 

Respondi que estava bem, obrigado. Informei-lhe que não morava mais em Cingapura, estava apenas de passagem. E que tinha escrito um livro, contando a minha história. Ele não acreditou quando viu a minha foto estampada na capa do livro. E foi ouvindo atentamente a minha história. Tenho certeza que enquanto eu falava, ele pensava: "que legal, escrever um livro é trabalho também!".

 

O Jason adorou quando contei que ele aparecia no livro. Mostrei a página onde eu falava dele. E obviamente, como ele não podia ler em português, fui traduzindo o trecho do livro para ele, omitindo, é claro, o motivo pelo qual ele havia perdido o cliente, dois anos atrás. Ele não precisava saber dessa parte, não é mesmo? Conversamos animadamente sobre Cingapura por 45 minutos, para desepero da Luiza, que estava louca para aproveitar a piscina do hotel. E não resisti à tentação de tirar uma foto dele segurando o meu livro. 

 

Não sei se o Jason vai conseguir ler no livro o motivo pelo qual ele perdeu o cliente, mas a verdade é que fiquei contente por revê-lo e acho que ele também. Se um dia eu voltar a morar em Cingapura, volto a ser cliente. Gente boa, esse Jason. Pena que ainda vai demorar um tempo para ele compreender um  "Macho do Século XXI".

 


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