Um conto (quase) infantil
 
19Mar

Um conto (quase) infantil

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Claudio Herique

 

Um conto (quase) infantil, por Claudio Henrique dos Santos (*)
 
 
Era uma vez um reino muito distante, chamado Ratolândia, que era governado por ratos enormes e gordos, que não mediam esforços para manter-se no poder. Eles controlavam tudo, incluindo os gatinhos que moravam por aquelas bandas. Alguns até tinham cara de bonzinhos, mas eram todos muito malvados e egoístas.
 
 
Neste lugar também havia muitos camundongos, tão mirradinhos, que não ameaçavam ninguém. Eram ratinhos da paz, muitos deles trabalhadores e honestos. Embora trabalhassem muito o dia inteiro, a maioria quase não tinha nem o que comer.  
 
 
Os ratões viviam em suas casas enormes e passavam férias em Paris, de onde traziam queijos da mais alta qualidade. Já os ratinhos camundongos viviam em suas casinhas humildes, cujas portas eram buracos pequeninos dentro das paredes das casas dos ratões.
 
 
Certa vez, uma ratinha velha, já cansada de sofrimento, falou para seus netinhos: “que bom que somos magrinhos e pequenos. Deus nos fez assim para que não tivéssemos problema para entrar e sair das nossas casinhas. Os gatinhos estão por toda parte. E morrem de medo dos ratões. Eles só nos caçam porque somos pequenos. Mas um dia haverá de surgir um camundongo muito corajoso, que nos livrará dessa situação de miséria”, disse a ratinha.
 
 
Os camundongos pareciam já conformados em comer apenas as sobras de comida e as cascas dos queijinhos comidos pelo ratões. Entretanto, um belo dia surgiu um pequeno grupo de camundongos muito simpáticos, que começou a ganhar espaço. Apareciam na televisão e na internet, contando que iriam mudar aquele reino.
 
 
O líder desses camundongos, muito astuto e falador, fez com que todos acreditassem que eles fariam melhor do que os ratões, embora não tivessem estudado nas melhores escolas e não falassem mais do que o idioma “ratês”, ao contrário dos ratões, que geralmente dominavam várias línguas estrangeiras. Parecia que, finalmente, todos teriam direito a ser felizes por ali.
 
 
Esses ratinhos foram ficando famosos. O chefe dos camundongos então achou que era hora deles começarem a governar. Não era justo que eles vivessem na miséria, enquanto aqueles ratões viviam no maior conforto, dentro das suas mansões enormes com carros reluzentes na garagem. O destemido ratinho resolveu, então, marcar dia e hora para desafiar os ratões.
 
 
O Senhor Ratão Presidente o chamou para conversar no palácio. Serviu bolachas, chocolate suiço e queijo Roquefort francês legítimo, uma iguaria naqueles tempos. O ratinho ficou maravilhado, pois nunca tinha sido tratado com tanto delicadeza. Mesmo assim, resolveu falar com a voz grossa e rouca, pouco comum a um ratinho daquele tamanho. “Estamos cansados de sofrer e de tanta miséria. Também não queremos mais morar na sombra, nesses buraquinhos apertados”.
 
 
O ratão que mandava em tudo então respondeu, com muita calma. “Não vejo como resolver seu problema. A vida sempre foi assim. E todos são felizes. Mas tenho muito interesse em escutar suas reclamações. Antes disso meu rapaz, coma um pedaço desse queijo, que está divino”, disse o grande rato, que era muito experiente e esperto. Ao colocar aquele pedacinho de queijo na boca, o líder camundongo quase se esqueceu do que ía falando, pois nunca havido comido algo tão delicioso em sua vida. E num piscar de olhos, sua voz foi amaciando.
 
 
“Senhor Ratão”, disse ele, num tom já mais amigável. “Eu tenho cá umas ideias para melhorar a vida de todo mundo, mas não tenho o poder para governar”. O ratão gordo abriu os olhos interessado. E respondeu: “Vamos dizer que eu deixe vocês, pequenos camundongos, mandarem por aqui. O que nós ganharemos em troca?”
 
 
“Vocês serão mais ricos do que nunca. O povo vai sair da miséria e nem vai lembrar que vocês existem. Num minuto, eles vão parar de reclamar. E vocês vão poder comer seus queijinhos importados sem a menor preocupação com nada”, explicou o camundongo, ainda com a boca cheia de queijo Roquefort.
 
 
“Se é assim, não vejo problema”, disse o ratão, contente com a resposta que havia recebido. Mas o ratinho ainda tinha mais uma exigência: “além do poder, precisamos que os senhores também acabem com os gatos. Mal podemos respirar com eles à solta”, pediu o camundongo. O ratão concordou, balançando a cabeça.
 
 
Fechado o acordo, os ratões fizeram sua parte e expulsaram todos os gatos do pedaço. E os camundongos, agora no comando, se puseram a trabalhar. Ou pelo menos, fingiam que estavam trabalhando, da mesma forma que faziam os ratões gulosos. Começaram a fazer propaganda na televisão sobre tudo de bom que haviam feito em tão pouco tempo e que as coisas estavam muito melhor. A esperança havia vencido o medo que todos tinham daqueles ratões gordos e horrendos.
 
 
E tudo parecia ter melhorado mesmo.
 
 
Os ratinhos mais pobres agora tinham direito a uma pequena ração de queijo. Um queijinho vagabundo, é verdade, mas era melhor do que passar fome.
 
 
Os camundongos que estavam no poder, começaram a gostar daquela vida. Depois de tanto tempo, eles finalmente colocavam suas patinhas em todo aquele queijo. E estavam se empapuçando. Mas como não eram bobos nem nada, preferiam guardar a maior parte do queijo fora do país, para não dar muito na vista. E continuaram morando em suas casinhas simples para manterem as aparências. Afinal, ninguém podia ficar sabendo que eles estavam guardando tanto queijo, ao invés de dividi-lo com o restante dos ratinhos.
 
 
Mas quem ainda mandava pra valer eram os ratões, que viviam em suas mansões e tinham mais queijo do que nunca. A única diferença é que eles agora deixavam os ratinhos circularem livremente, pois não havia mais gatos por ali.
 
 
Nunca na história daquele reino se viu tanta gente feliz e risonha, fossem ratinhos ou ratões.
 
 
Mas depois de um tempo, as coisas começaram a piorar. Os ratinhos pobres ainda recebiam uma pequena ração de queijo por dia, mas foram ficando cada vez mais pobres. E aqueles que tinham conseguido comprar um carrinho e uma casinha um pouco melhor, agora não tinham mais como pagar o que haviam comprado e tiveram que entregar tudo para os ratões, que eram os donos dos bancos que financiavam aquilo.
 
 
Naquela altura, a ratinha velha já tinha bisnetos. “Meus filhotes, esse país já foi bom um dia. Mas isso era nos tempos que haviam gatos, que nos caçavam por aí. Hoje podemos andar por toda a parte. Mas não temos mais nada. Perdemos a esperança, pois os camundongos, que eram bonzinhos e idealistas, tornaram-se egoístas e malvados, como os ratões. Já não temos mais em quem confiar”, dizia a velhinha inconsolável.
 
 
A velhota tinha razão. Os camundongos foram ficando cada vez mais gulosos. Não queriam dividir mais nada com ninguém, nem mesmo com os ratões. E aqueles ratinhos, que antes eram mirrados e pequenos, agora eram poderosos. E começaram a comer tanto, mas tanto, que mal conseguiam passar pela porta de suas casinhas.  
 
 
Os ratões também já não andavam tão contentes. Mas eram muito espertos e não tiveram dúvida. Foram ao lugar onde moravam todos os gatinhos e espalharam notícia, dizendo que os camundongos de Ratolândia agora estavam tão gordos, que mal entravam em suas casas. Seriam presas fáceis para os gatinhos, que já estavam com saudade da carne macia dos camundongos.
 
 
Não demorou muito, o reino estava cheio de gatos novamente, comandados pelos ratões, que seguiam sendo muito gordos e fortes. Os ratinhos pobres, por sua vez, continuavam magrinhos e não tinham problemas para correr e se esconder. Mas os camundongos, agora gordinhos, mal podiam se mexer. Para piorar a situação, os que conseguiam escapar das garras dos gatinhos, acabavam entalados nas portinhas das suas casas. Foram todos devorados rapidamente.
 
 
Assim termina esse conto, com um final que não é dos mais felizes. Ratolândia voltou a ser como era antes, controlada pelos ratões. E os ratinhos pequenos continuam vivendo escondidos, comendo as migalhas que sobram.
 
 
Se você gostou dessa estória, compartilhe. Ela não tem a menor pretensão de mudar nem ratinhos, nem ratões. Mas se você lê-la para seus filhos, talvez eles gostem. Quem sabe, um dia, eles se lembrarão dela e vão querer fazer um final diferente?
 
 
(*) Claudio Henrique dos Santos é jornalista e autor do livro “Macho do Século XXI” . Também inventa estórias para sua filha de seis anos dormir. Dessa vez, ela não gostou muito. Preferia um outro final, assim como seu autor.


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