O que aprendi quando fui sustentado por uma mulher
 
29Jan

O que aprendi quando fui sustentado por uma mulher

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Claudio Herique

“Aprender significa entrar em contato com um mundo do qual não se fazia a menor ideia. É preciso ser humilde para aprender”. Esta frase, escrita pelo Paulo Coelho em seu livro Brida, define experiência que vivenciei.
 
Essa história começou no final de 2010, quando minha esposa foi transferida para Cingapura. Ficar sem emprego pela primeira vez na vida foi um choque, que só piorou quando eu fiquei sabendo que não teria um visto de trabalho e que a partir daquele dia passava a ser oficialmente sustentado pela mulher. O que parecia o fim do mundo acabou se transformando num aprendizado enorme. A ponto de ter virado livro - “Macho do Século XXI, o executivo que virou dona de casa. E acabou gostando”.
 
Em resumo: fui executivo durante quase 20 anos e perto de completar 40 anos de idade, virei dono de casa. Justo eu, que nunca tinha fritado um ovo na vida. Foi somente aí que comecei a perceber uma série de coisas que estavam bem na frente do meu nariz, que simplesmente não conseguia enxergar. Descobri que eu era muito machista, mas não sabia. Passei por situações que fazem parte do cotidiano de muitas mulheres. E posso garantir: não é legal. Compartilho aqui algumas coisas que aprendi com esta experiência.  
 
Dependência financeira
Quando cheguei em Cingapura descobri que dependeria do dinheiro de outra pessoa para comprar até um sanduíche na esquina. Alguns homens acham que uma mulher sustentada pelo marido está no paraíso. Eu pensava assim também. Mudei de ideia.
 
Quando você é independente financeiramente, é você quem dá as cartas. Eu podia até usar o dinheiro para uma pequena extravagância aqui e ali. Mas aquele curso de especialização que custava os olhos da cara, ou aquela viagem dos sonhos, ficava inviável. Com o seu dinheiro, você se planeja e dá um jeito. Quando dependemos de alguém, de certa forma abrimos mão dos nossos sonhos, dos nossos objetivos pessoais.
 
Carreira e filhos
A natureza é sábia, nos permite ter filhos no período onde temos mais energia - que muitas vezes coincide com o momento de crescimento na carreira. Não tem nada melhor do que poder cuidar de um filho, trocar carinho, afeto, vê-lo aprender uma coisa nova por dia. Vivi isso na pele, fiquei 1.005 dias ininterruptos do lado da minha filha, pegando na mão dela todos os dias. Faria tudo de novo, porque naquele momento fazia sentido. Foi uma coisa combinada, o salário da minha esposa era suficiente. Mesmo assim, uma decisão dessa cobra seu preço.
 
Quando minha filha começou a crescer, comecei a me deparar com os dilemas vividos por inúmeras mulheres na mesma situação. É possível prosseguir na carreira, recomeçando no mesmo patamar de quando parou? Como explicar aquele período do seu CV quando teoricamente você ficou sem fazer “nada de produtivo”?
 
O trabalho doméstico deve ser compartilhado
Cuidar da casa e dos filhos dá um trabalho danado. Juro que não fazia ideia, até o momento que “coloquei a mão na massa”. A gente acha que as mulheres fazem tudo com tanta “naturalidade”.  Acabei aprendendo que compartilhar as tarefas da casa é somente a maneira correta de conviver com alguém que divide o mesmo teto conosco.
E ficar próximo de um filho não tem preço. Não nos permitimos viver a paternidade na plenitude, por conta de nossa criação machista. Perdemos muito com isso.
 
Costumo brincar que tenho saudade de ser “macho do século 20”. A gente trabalha o dia todo, mas quando volta para casa o jantar está na mesa, os filhos já comeram, fizeram lição de casa. Para relaxar, nada como uma cervejinha gelada assistindo futebol na televisão. Entretanto, é mais legal ser “macho do século 21”, embora seja muito mais cansativo. Com mais tempo, a mulher que está do nosso lado também pode ter uma carreira, ser uma pessoa plenamente realizada, correr atrás dos seus sonhos.
 
A jornada dupla precisa ser reconhecida pelas empresas
É fato que a divisão das tarefas domésticas ainda é desigual na maior parte das famílias e o maior fardo cai sobre os ombros das mulheres. Sem contar aquelas que sustentam uma casa sozinha - cerca de 40% das casas brasileiras são bancadas exclusivamente por mulheres. Essas mulheres que trabalham fora tem as mesmas responsabilidades que seus pares homens da empresa, são cobradas por seus resultados. É assim que tem que ser, afinal uma empresa visa lucro.
 
Entretanto, muitos líderes ainda precisam compreender que enquanto todos são iguais dentro da empresa, fora do ambiente corporativo a realidade ainda é diferente. Por isso, os talentos femininos devem ser valorizados e pensar em maneiras de facilitar o desenvolvimento de carreira é uma obrigação. Além disso, a cultura organizacional também deve mudar. Não dá mais para fazer cara feia quando a mãe sai mais cedo para levar um filho ao médico - nem ficar chocado quando é um homem que precisa fazer isso. Todos - empresas e pessoas - ganham quando praticam a equidade de gênero. 


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