O ser, o parecer e a vida além das redes sociais
 
13Nov

O ser, o parecer e a vida além das redes sociais

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Claudio Herique

Nesta semana compareci à cerimônia do Prêmio Claudia 2019, que reconhece iniciativas de mulheres (e homens) que fazem a diferença na construção de uma sociedade melhor. Confesso que fiquei muito emocionado com todas as histórias apresentadas, que me fizeram refletir não somente sobre a vida como ela é, mas também a respeito do famoso provérbio sobre Pompeia (a esposa do imperador César) – “não basta ser honesta, é preciso parecer honesta”.  Na lógica atual das redes sociais, onde o parecer às vezes é mais importante do que o ser, ainda existe gente que não está nem aí com isso. Ainda bem.
 
Naquela noite, conheci 24 histórias realmente inspiradoras. Histórias que não vemos na mídia, nos telejornais, escritas muitas vezes por pessoas que não tem milhares de seguidores nas redes sociais. Histórias que não rendem milhões de likes, apenas sobre gente que cuida de gente. Gente que transforma a vida de pessoas que são invisíveis ou até mesmo marginalizadas pela sociedade. Histórias cujo “charme” maior é nos mostrar o quanto nossos problemas são realmente insignificantes diante de tanta gente que precisa de apoio e de tantas questões prioritárias que precisam ser solucionadas.  
 
Findado o prêmio, senti uma vontade quase incontrolável de abraçar algumas daquelas pessoas, expressar minha gratidão de alguma forma, enfim, agradecer o fato de me sentir mais humano naquele momento. Três delas em especial.
 
A primeira, Neide de Jesus. Líder de uma comunidade quilombola, ela capacita dezenas de mulheres que geram renda com seu artesanato. Gente que teve pouco acesso ao básico que o Estado deveria prover, mas que se sustenta graças à oportunidade criada com muita dificuldade pela dona Neide. Ao receber o prêmio, ela mal conseguia falar, tomada pela emoção. Muito simples e de poucas palavras, recebeu meu abraço, retribuiu com um sorriso tímido. Talvez estivesse preocupada com a viagem de volta para casa, que levaria quase um dia inteiro. Obrigado, dona Neide, pela economia nas palavras e abundância de atitude.
 
 
Em seguida, encontrei a Sandra Santos. Cozinheira em uma instituição educacional do governo para menores infratores, ela conforta mães, tias e avós que muitas vezes aguardam um dia inteiro para fazer uma visita. Ao perceber que no local não havia nem banheiro para as visitantes, alugou a casa em frente, que virou um espaço de acolhimento a essas pessoas. Não precisei pedir um abraço. É isso que ela mais faz em sua vida. Eu é que não queria desgrudar dos braços dela, um deleite. Rimos sobre a diabetes que quase a levou há alguns anos e sobre nosso esquecimento mútuo de seguirmos recomendações médicas. Obrigado, Sandra, por me lembrar do valor de um abraço.
 
 
Finalmente, encontrei a atriz Teuda Bara, que lidera um dos grupos icônicos do nosso teatro, o Galpão. Promove também espetáculos de rua para garantir o acesso de quem não pode pagar por Cultura. No vídeo apresentado na cerimônia, seu sorriso fácil e a evidente alegria de viver tomaram conta da Sala São Paulo. Não ganhou o prêmio na sua categoria, mas o mesmo sorriso estava ali, na minha frente. Desta vez, o abraço veio com um bônus extra. Brincamos sobre a cena do sutiã no filme “O Palhaço” (se ainda não assistiu, o faça, o mais rápido possível). Saí com a certeza que ainda nos veremos de novo. Obrigado, Teuda, por me lembrar que rir ainda é o melhor remédio.  
 
 
Feitos os meus agradecimentos, compartilho algo que me chamou a atenção. Apesar de todas terem sido aplaudidas de pé, realmente com muito entusiasmo, acabada a cerimônia, ali no palco, elas voltaram a ser Neide, Sandra e Teuda. Nenhuma das três tem Instagram. Agora, a maioria das atenções se voltava para aquelas pessoas com milhares de seguidores que ali também estavam. Para muitos da plateia, a foto para postar na rede social voltava a ser prioridade. Nenhum julgamento de juízo, apenas uma constatação. Vida que segue.
 

Seria muito pedante da minha parte inferir que gente que quer transformar o mundo não tem tempo para estar nas redes sociais. Muito menos ouso pensar que pessoas que tem milhares de seguidores também não querem mudar o mundo. Muitas o fazem, inclusive utilizando as redes sociais como ferramenta. Mas vale a reflexão sobre o que precisamos mudar dentro de nós. Sobre o ser e o parecer. E sobre o que realmente é prioridade. Apenas conheci três pessoas maravilhosas que não estão nas redes. Mas vou tentar lembrar disso antes de sair correndo para checar as notificações do meu celular cada vez que ele apita. Ou melhor, acho que vou desligar todas elas. 


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